É claro que, até certo ponto, todas as sociedades estão em guerra consigo mesmas. Há sempre colisões entre interesses, facções, classes e coisas do tipo; além disso, sistemas sociais estão sempre baseados na busca de diferentes formas de valor, os quais empurram as pessoas em diferentes direções. Em sociedades igualitárias, as quais tendem a colocar uma enorme ênfase na criação e manutenção de consenso comunitário, isso parece, frequentemente, dar origem a um tipo igualmente elaborado de formação reativa, um mundo noturno habitado por monstros, bruxas e outras criaturas de terror. E são as sociedades mais pacíficas as que são também as mais assombradas - em suas construções imaginativas do cosmos - por espectros constantes de guerra perene. Os mundos invisíveis que os envolvem são, literalmente, campos de batalha. É como se o incessante trabalho de alcançar o consenso mascarasse uma violência interna constante - ou, talvez seja melhor dizer, é de fato o processo pelo qual tal violência interna é medida e contida - e é precisamente isso, e o emaranhado de contradição moral que daí resulta, que é a fonte primeira de criatividade social. Não são esses princípios conflitantes e impulsos contraditórios em si que são a realidade última da política, portanto; é o processo regulatório que os media.
— David Graeber | Fragmentos de uma antropologia anarquista. Porto Alegre: Deriva, 2011, p. 48-49.